sábado, 6 de junho de 2026

O que a ciência realmente diz sobre manter o português vivo fora do Brasil?

 

Se você chegou até este texto pelo Instagram, provavelmente viu um vídeo em que eu falava sobre crianças que entendem português, mas respondem apenas na língua do país onde vivem.

Se esse é o seu caso, saiba que você está longe de estar sozinha.

Ao longo dos anos, conversando com outras mães brasileiras aqui na Holanda, percebi que existe uma preocupação recorrente:

"Meu filho entende tudo em português, mas só responde em holandês (mas poderia ser em inglês ou em alemão, dependendo do país...). O que aconteceu?"

A resposta curta é: provavelmente nada de anormal.

A resposta longa é que manter uma língua de herança — como o português para famílias brasileiras vivendo no exterior — é um processo muito mais complexo do que simplesmente falar português dentro de casa.

O que mudou nos últimos quinze ou vinte anos?

Quando meus filhos eram pequenos, eu lia praticamente tudo o que conseguia encontrar sobre bilinguismo infantil.

Uma das pesquisadoras que mais influenciaram minha forma de pensar foi dr. Barbara Zurer Pearson, autora de Raising a Bilingual Child (2008). E foi inspirada por essas leituras que comecei a escrever meus primeiros textos sobre bilinguismo para a comunidade brasileira ainda no final dos anos 2000.

Recentemente reli alguns desses textos. E foi interessante perceber uma coisa: muitas das ideias centrais continuam atuais.

O que mudou não foram necessariamente os princípios básicos, mas a quantidade de evidências que temos para sustentá-los. Hoje contamos com estudos maiores, metodologias mais robustas e uma compreensão mais detalhada dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento bilíngue.

Em outras palavras: a pesquisa avançou muito, mas vários dos fatores que já pareciam importantes há quinze anos continuam aparecendo repetidamente nos estudos mais recentes.

E não existe uma fórmula mágica!

Na verdade, acho que isso é uma boa notícia. Significa que não precisamos contar com "forças ocultas", talentos especiais para idiomas ou alguma característica misteriosa da criança. Existem fatores que podemos compreender, observar e, até certo ponto, influenciar no dia a dia da família.

 Então vamos lá? Vamos falar de alguns dos fatores que a ciência considera importantes para ajudar nossos curumins a manter vivo o nosso português. 😊

1. Exposição: a criança precisa ouvir português

Este é provavelmente o fator mais intuitivo: nenhuma criança aprende uma língua sem ser exposta a ela.

Só que isso também significa muito mais do que simplesmente ouvir algumas palavras durante as férias ou numa chamada de vídeo com os avós. A criança precisa viver a língua.

Precisa ouvir histórias. Participar de conversas. Fazer perguntas. Escutar explicações. Brincar. Cantar.

Pesquisadores como Erika Hoff vêm mostrando há muitos anos que a quantidade e a qualidade da exposição influenciam diretamente o desenvolvimento linguístico.

Isso parece óbvio, certo?

Mas existe um detalhe importante: muitas famílias acreditam que exposição, sozinha, é suficiente.

E a exposição é realmente fundamental, mas as pesquisas mais recentes sugerem que ouvir uma língua não é a mesma coisa que usá-la.

Uma criança pode entender perfeitamente o português e ainda assim preferir responder em holandês, inglês ou na língua do país onde vive.

É aqui que entra o segundo fator.

2. Necessidade: a criança precisa perceber utilidade na língua

Vamos imaginar uma situação comum.

Uma criança brasileira vivendo na Holanda.

Ela vai à escola em holandês. Brinca em holandês. Pratica esportes em holandês. Assiste televisão em holandês. Conversa com amigos em holandês. E descobre que os pais entendem perfeitamente quando ela responde em holandês.

Pergunta sincera:

Por que ela escolheria responder em português?

O linguista François Grosjean costuma enfatizar aquilo que chama de princípio da necessidade.

Nós utilizamos as línguas que precisamos utilizar. E isso vale para adultos e crianças.

Quando uma língua tem uma função clara na vida da criança, ela tende a ser mantida com mais facilidade.

A necessidade de falar o português pode surgir de várias formas:

  • avós que falam apenas português;
  • primos no Brasil;
  • amigos brasileiros;
  • viagens;
  • atividades culturais;
  • comunidades de falantes;
  • ou até um personagem, brinquedo ou bichinho de estimação que "só entenda português".

Quanto mais a criança percebe que o português tem um papel real na sua vida, maiores tendem a ser as chances de mantê-lo ativo.

Mas perceber utilidade não é o mesmo que usar a língua.

Uma criança pode saber que o português é importante para conversar com os avós, para viajar ao Brasil ou para manter contato com a família, e ainda assim falar relativamente pouco.

E é aqui que as pesquisas mais recentes trouxeram uma contribuição particularmente interessante. Durante muito tempo os pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança ouvia. Hoje sabemos que ouvir uma língua é importante, precisar dela também, mas o próprio ato de falar parece desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento linguístico.

3. Uso ativo: ouvir não basta

Aqui encontramos uma das contribuições mais interessantes das pesquisas mais recentes.

Durante muito tempo os pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança escutava. Mais recentemente começaram a estudar aquilo que a criança falava.

E os resultados ajudam a explicar algo que muitos pais observam na prática: algumas crianças entendem perfeitamente o português, mas parecem ter dificuldade para responder.

Um estudo realizado em Singapura com crianças aprendendo mandarim como língua de herança trouxe um resultado bastante interessante.

Não era apenas a quantidade de mandarim que as crianças ouviam que fazia diferença.

Fazia diferença também o quanto elas utilizavam a língua. E, mais especificamente, em quantos contextos diferentes elas a utilizavam.

Quando uma criança fala uma língua, ela não está apenas reproduzindo palavras. Ela está: organizando pensamentos, selecionando vocabulário, construindo frases, recebendo feedback, corrigindo erros, praticando...

Em outras palavras: falar também é uma forma de aprender.

Isso ajuda a entender por que algumas crianças desenvolvem uma boa compreensão do português, mas têm mais dificuldade para utilizá-lo de forma espontânea.

A compreensão foi construída. Mas as oportunidades de uso ativo ficaram limitadas.

Quanto mais oportunidades nossos curumins têm para usar o português em situações reais, maiores tendem a ser as chances de que ele se torne uma língua viva, e não apenas uma língua compreendida.

4. Consistência: o ingrediente menos emocionante e talvez um dos mais importantes

Se eu pudesse escolher apenas uma palavra para resumir muitos dos estudos sobre bilinguismo familiar, provavelmente escolheria consistência.

Não porque exista uma regra única que funcione para todas as famílias, mas porque a linguagem se constrói através de milhares de pequenas interações repetidas ao longo do tempo.

Pesquisadoras como Annick De Houwer vêm mostrando há anos a importância daquilo que hoje chamamos de Family Language Policy — ou política linguística familiar.

Em termos simples: o que a família faz repetidamente importa. E muito!

Isso não significa rigidez nem muito menos transformar o português em uma obrigação. Não, não, não!!!

Mas significa que as crianças tendem a compreender melhor o papel de cada língua quando existem padrões relativamente estáveis no ambiente familiar, como por exemplo sempre falar em português com a mãe e holandês com o pai; ou sempre falar português em casa, inglês na escola e holandês com os amigos...e por aí vai.

Uma coisa é certa: o que ficou mais claro nas pesquisas dos últimos anos é que ouvir uma língua, embora seja fundamental, não é suficiente. O uso ativo da língua também é muito importante!

Em outras palavras: não basta que nossos curumins escutem português. Eles também precisam de oportunidades reais para usá-lo.

Então qual é a conclusão de tudo isso?

A ciência não oferece uma receita universal para criar crianças bilíngues ou multilíngues. Cada família tem sua própria realidade, seus próprios desafios e suas próprias estratégias.

Mas os estudos sugerem, de forma bastante consistente, que a manutenção de uma língua de herança tende a ser favorecida quando a criança recebe exposição significativa à língua, percebe utilidade nela, tem oportunidades reais para usá-la e vive em um ambiente relativamente consistente em relação às práticas linguísticas da família.

Parece simples. Na prática, sabemos que não é.

Especialmente quando estamos tentando equilibrar escola, trabalho, atividades extracurriculares, vida social e todas as demandas da vida real.

Mas entender esses fatores já é um excelente ponto de partida!

Nos próximos meses pretendo voltar a escrever mais sobre bilinguismo, língua de herança e os desafios de criar filhos entre culturas e idiomas diferentes. Afinal, depois de quase duas décadas estudando esse tema — e depois de criar dois filhos trilíngues aqui na Holanda — ainda tenho a sensação de que estamos todos aprendendo juntos.

Então me conte sua experiência. Depois de ler tudo isso, qual destes fatores parece ser o maior desafio na sua família neste momento?

É a exposição? A necessidade? As oportunidades de uso ativo? Ou a consistência?

Talvez a sua experiência inspire o próximo texto aqui no blog e umas coisas lá no instagram 😊


Quer se aprofundar no assunto?

  • Pearson, B. Z. (2008). Raising a Bilingual Child.
  • De Houwer, A. (2009). An Introduction to Bilingual Development.
  • Grosjean, F., & Pavlenko, A. (2021). Life as a Bilingual: Knowing and Using Two or More Languages.
  • Hoff, E., Core, C., Place, S., Rumiche, R., Señor, M., & Parra, M. (2011). Dual Language Exposure and Early Bilingual Development.
  • Bialystok, E., & Werker, J. F. (2017). The Systematic Effects of Bilingualism on Children's Development.
  • Sun, H., Waschl, N., & Veera, R. (2022). Language Experience and Bilingual Children's Heritage Language Learning.
  • Inan, S., & Harris, Y. R. (2025). Beyond the Home: Rethinking Heritage Language Maintenance as a Collective Responsibility.

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Farofa no Instagram!

 

Farofa no Instagram!

Depois de muitos anos escrevendo no blog — e depois de alguns anos em que o Farofa ficou mais quietinho — resolvi finalmente aparecer também no Instagram.

Confesso que ainda acho um pouco estranho trocar os blogs da década de 2000 pelos reels, stories e algoritmos da vida moderna. Mas percebi que muita gente hoje vive no Instagram, e talvez seja uma forma mais fácil de continuar as conversas que começaram por aqui tantos anos atrás.

Além disso, sejamos honestos: blog hoje em dia virou quase peça de museu da internet. E embora eu continue gostando desse cantinho aqui, as possibilidades acabam sendo mais limitadas. No último post, por exemplo, tentei colocar um print do WhatsApp e a imagem ficou sem definição nenhuma. Claramente o Farofa precisava sair um pouco do mundo dos blogs e espalhar sua bagunça organizada pelas redes sociais também.

Mas calma: isso não significa que o blog vai acabar. Continuarei escrevendo por aqui sempre que o formato permitir — e sempre que eu conseguir organizar a farofa da vida real, da universidade, das bicicletas, dos idiomas e das abas abertas no computador.

O Farofa de Tulipas começou em 2007, entre português, holandês, diferenças culturais, maternidade, bicicletas, filhos crescendo entre idiomas e as pequenas confusões da vida multicultural. E embora os blogs tenham perdido espaço com o tempo, a vida entre culturas continuou acontecendo por aqui.

Agora que os meninos já cresceram — e se tornaram oficialmente trilíngues — achei que talvez fosse um bom momento para voltar a escrever mais sobre bilinguismo, vida multicultural e as experiências (e dúvidas!) de criar filhos entre idiomas e países.

Também queria ouvir outras famílias vivendo essa realidade. Por isso criei um espaço para quem quiser compartilhar histórias, dúvidas, dificuldades ou experiências sobre bilinguismo, trilinguismo e vida multicultural.

Então, para quem quiser acompanhar essa nova fase do Farofa:
agora estamos também no Instagram
e há um formulário para compartilhar experiências e perguntas sobre vida entre culturas

Os links estão na bio do Instagram:
@farofadetulipas

Sejam bem-vindos lá. :)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Quando o português veio vindo

Por esses dias eu estava lembrando o pânico que eu sentia quando imaginava que meus filhos não fossem aprender a falar português. 

 Aí eu falava o tempo todo e sobre tudo com eles. O tempo todo e sobre tudo MESMO

 Era em casa, enquanto trocava roupa, dava banho, fazia comida, limpava a casa ou dobrava roupa. Eu declamava receitas como se declamasse poemas de Pessoa; cantarolava os produtos de limpeza e rimava com os cantos da casa a serem limpos. Quando andava na rua, parecia narrador de futebol, só que ia descrevendo os carros que passavam, as pessoas, as roupas das pessoas, as cores das flores, os nomes de tudo. 

 Depois disso, quando o idioma veio vindo, fiquei mais relaxada. 

 Mas hoje me dá muita satisfação e sensação de dever cumprido ver que eles não só falam e entendem português, como lêem e escrevem. Aliás, nossa comunicação por WhatsApp é em português. Claro que cometem errinhos, mas quem nunca? 

 E enquanto no Brasil o barato é pedir o carro dos pais emprestado, aqui na Holanda o barato é pedir para usar a bicicleta elétrica da mãe. Nessas horas é que vemos a tal diferença cultural, não é verdade?
 😊 


 Recadinhos trocados com Victor e do Daniel:

sábado, 9 de maio de 2026

Ainda existe alguém aí?

 “Outro dia” (tipo há alguns anos atrás...ha ha) lembrei que esse blog existia.

Não “lembrei” no sentido figurado. Eu literalmente tinha esquecido que ele ainda estava aqui, perdido em algum canto jurássico da internet, sobrevivendo bravamente desde a era dos dinossauros, do Blogspot e das pessoas que ainda liam textos maiores que legenda de Instagram.

Daí resolvi entrar.

E aí aconteceu uma coisa estranha.

Eu encontrei versões antigas da minha vida me esperando.

Victor pequeno achando que cemitério era conjunto de esqueletos.
Daniel indignado porque não queria falar “landês” comigo.
As confusões bilíngues.
As aventuras na Holanda.
Os musiquinhos da escola.
As crises existenciais.
As mudanças.
As malas.
Os recomeços.
As teorias mirabolantes das crianças.
O doutorado.
O divórcio.
A volta pro Brasil.
A volta pra Holanda.
Um novo amor no meio do caos.
E algumas perdas grandes demais para caberem em um post.

A vida acontecendo no modo “não tenho tempo nem de respirar”.

E os meninos cresceram.

Muito.

Hoje estão na universidade, continuam falando português, holandês e inglês fluentemente e provavelmente continuam me corrigindo em alguma coisa nesse exato momento.

Aliás, uma das coisas mais estranhas de envelhecer é perceber que aquelas crianças dos posts antigos agora opinam sobre política, cozinham, pagam contas e têm barba.

BARBA, gente.

E talvez a coisa mais inesperada para quem acompanhava esse blog lá atrás:
eu virei avó.

Sim.
A vida claramente perdeu qualquer compromisso com a coerência temporal.

E aparentemente a tradição familiar de crianças bilíngues na Holanda continua firme e forte, porque o neto mais velho já fala português direitinho.

Mas como o mundo resolveu entrar em modo apocalipse coletivo nos últimos anos, talvez faça sentido voltar a escrever.
Nem que seja para registrar as loucuras da existência antes que alguém invente outra pandemia, mais três guerras e um aplicativo que substitua completamente a capacidade humana de prestar atenção por mais de 8 segundos.

Então talvez eu volte a contar histórias por aqui.
Com fotos.
Talvez vídeos.
Talvez causos antigos que nunca contei.
Talvez novos.

Vamos ver se ainda existe alguém por aqui.

E se existir:

oi de novo :)

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Será que ainda tem gente que leria esse blog?

 Mas olha! Eu quase tinha esquecido que ainda tinha esse blog.

Não sei se ainda funciona do mesmo modo, não sei se alguém ainda lembra do blog. Mais de 5 anos desde a última vez que postei alguma coisa.

Mas então vamos testar.


O mundo gira, pelo menos para aqueles que ainda sabem que a Terra é redonda, e voltamos a morar na Holanda há pouco mais de 5 anos.


Motivo da volta? Ai, são tantos! Talvez dê um outro post se alguém se interessar.


Os meninos estão bem e hoje em dia os 2 na escola secundária bilíngue. Victor faz 16 em Janeiro (dá pra acreditar???) e Daniel está com 13.


Victor e Daniel estão adolescentes típicos: quando estão em casa ficam jogando no computador, um saco :(

Falam os 3 idiomas fluentemente (português, holandês e inglês) e também escrevem e lêem nos 3 idiomas. Mesmo tendo frequentado escola em holandês muito pouco (Victor apenas por 1 ano e Daniel por 2 anos) vão para o nível mais alto da escola aqui e também mantêm notas altas.


É, o trilinguismo deu muito certo por aqui :) :)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Sobre a escola

   Victor continua adorando contar tudo o que acontece na escola. Quem o conhece sabe como ele gosta de falar....sobre tudo e o tempo todo!


- Mamãe, você sabe qual é o nome do conjunto de ossos?
- Hmmm...qual é?
- Esqueleto!!!
- Que legal, é verdade.
- E o conjunto de esqueletos?
- Xi, essa é difícil.
- CEMITÉRIO!!!

- ha ha ha ha ha

- Mamãe, porque você está rindo? está errado?
-Ah, não é piada?
- Ué, eu acho que é cemitério. Eu só ACHO. E pelo menos eu tentei responder. Você poderia pelo menos não rir de mim por tentar, né, mamãe?

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Não foi por mal; eu pensei mesmo que ele estivesse fazendo piada. Tadinho!


quinta-feira, 12 de março de 2015

Aprendendo sobre emoções

     Levei Victor para tratar de sua primeira cárie (espero ser a última) e ele estava há vários dias bastante nervoso sobre isso. Ele ficou nervoso, chorou e eu segurei suas mãozinhas...geladas. Mas deixou tratar direitinho e depois foi me explicar:



- Mamãe, eu estava nervoso porque não sabia o que ia acontecer e achava que ia doer.

- Mas mamãe e tia Rosana não explicaram que não ia doer nada?

- Sim, mas dentista sempre tem instrumentos que podem ferir, então fiquei nervoso, ué.

                             (pausa para pensar)

- Mamãe, as pessoas não choram somente de dor ou porque estão tristes: choram também quando estão nervosas.

- Verdade, como aconteceu com você hoje, não é?

- E também podem chorar de felicidade, não é?

- É sim. Você já chorou de felicidade, meu amor?

- Já!

- E quando foi isso?

- Quando eu descobri que você era minha mãe.

- Ué, mas você sempre soube disso!

- Não, mamãe. Quando eu nasci, eu olhei para você e descobri que você seria minha mãe: aí eu chorei de felicidade porque eu ia ter uma mãe legal!


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# Nào é uma coisinha fofa o meu meu amor? :)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Balanço de pouco mais de um ano

    Nossa, já faz mais de um ano que mudamos para o Brasil e as postagens estão bastante espaçadas. Em meu favor, posso dizer que as coisas andam bastante ocupadas por aqui. E quando sobra tempo, falta energia. 

    Bem, agora que as coisas estão começando a ficar mais estáveis, vou tentar escrever com mais frequência, já que volta e meia tem alguém escrevendo e querendo saber notícias. As amigas da vida real têm um contato mais frequente e sabem das novidades desse lado do globo, mas as virtuais ficam mais tempo sem saber o que anda acontecendo e, muitas vezes, querem saber sobre a vida aqui pois têm também vontade ou necessidade de voltar.

   A principal pergunta é se eu me arrependo de ter voltado. Acho esse tópico bem peculiar. Enquanto muitas brasileiras que moram no exterior querem voltar (não todas, mas uma boa parte), as pessoas aqui do Brasil continuam fantasiando uma vida de contos de fadas que supostamente existe no além-mar. Acham que tudo lá fora é melhor, mais luxuoso e mais tudo que aqui, o que não me surpreende porque o conhecimento que têm é o da viagem turística anual, quando se hospedam no Hilton e comem em restaurantes caros (que são mais baratos que os restaurantes caros daqui, mas tem que ver os salários também, né?). Ou um intercâmbio de alguns meses, onde ficaram ainda na fase de estarem apaixonados pela outra cultura (vide temas sobre choque cultural), e quando recebem do governo brasileiro uma quantia muitas vezes maior do que o povo local tem pra viver.
    
   Eu sinto sim falta da Holanda, mas também gosto de estar novamente no Rio. 

    A pessoa expatriada que sonha em voltar para o Brasil encontra muitas opiniões contrárias, especialmente de quem nunca morou fora e que não tem, portanto, propriedade de dizer nada, além de "pitacos" de expatriados que retornaram e que ainda sofrem da síndrome do regresso (em outro post falo disso, prometo) e cujas vidas profissionais aqui não foi tão bem sucedida quanto se era esperado.

   Cada caso é um caso em particular e não sou eu quem pode dizer que voltar é a melhor opção para todos, então vou tentar discutir sobre alguns tópicos de forma mais imparcial possível (se é que imparcialidade nesses casos existe...rs).

1. A parte financeira e profissional.


    Há 10 anos, quando saí do Brasil e fui morar na Holanda, os salários aqui não eram lá essas coisas. Hoje em dia eu vejo alguma melhora. Vou falar do salário dos professores e de pesquisadores bolsistas, que é o que eu conheço melhor. Hoje em dia acho que melhorou bastante. Quem ficou por aqui vai espernear, se jogar no chão e babar em protesto, mas eu observo a relação custo de vida-salário e comparo com 10 anos atrás da minha vida. Por exemplo: comparo o salário de professor iniciante do estado e o aluguel que eu pagava num apartamento de 2 quartos em um subúrbio do Rio. Há 10 anos atrás, o valor desse salário inicial era o valor do aluguel; hoje em dia, esse mesmo salário paga esse mesmo aluguel (inclusive fui ver exatamente no mesmo prédio) e ainda sobra mais ou menos 30%, o que dá pra pagar também o condomínio (que não dava antes). Na zona sul os valores de aluguéis subiram mais realmente, devido à Copa e às Olimpíadas. O mesmo vale para bolsas de doutorado e pós-doutorado, que há 10 anos atrás compravam menos coisas que o que pode-se comprar hoje em dia, além de serem em quantidade menor do que o que se oferece hoje em dia.

   Mas e por que os brasileiros reclamam tanto? 

   Eu não sei. Mas os vejo reclamando de falta de grana dentro de carros trocados a cada ano e com celulares de última geração que são também trocados a cada modelo novo que aparece no mercado. A vida que a classe média vive aqui é uma vida muito luxuosa se comparada com a  vida de classe média na Holanda, por exemplo. Eu fico pensando sobre como as pessoas imaginam que eu vivia na Terra dos tamancos...será que acham que eu morava em algum castelo e dirigia um BMW? e que tinha 8 empregados para suprir as minhas "necessidades"? E aqui ainda pode-se dividir os valores das coisas (beeem mais altos que na Europa, o que reforça a crença dos altos salários brasileiros) em 10 vezes sem juros!

 Mas e o salário mínimo? ah, aí é que está a diferença! a classe pobre do Brasil é realmente muito pobre ainda! o salário mínimo ainda não consegue suprir as necessidades básicas de uma família e as diferenças de classe social ainda são abismais. Na Holanda, quem é pobre não tem uma vida muito diferente de quem é classe média. Logo, para quem vive de salário minimo no Brasil, é muito mais vantajoso trabalhar na mesma coisa na Holanda sim. E quem tem alguma profissão melhor remunerada aqui, é melhor ficar por aqui mesmo.

  Existe também o folclore de que no Brasil se pagam os maiores impostos do mundo (mentira!) e que não existe retorno suficiente (verdade!). Os serviços prestados à população são muito melhores na Holanda que aqui. Vide as escolas que são gratuitas e de qualidade. Aqui no Brasil as escolas públicas, de modo geral mas com algumas memoráveis exceções, são de qualidade muito ruim. Aí vem a coisa da classe média pagar escola particular...é ruim, concordo, mas a diferença de salários entre as classes ainda é suficiente para acomodar essa despesa. E quem é pobre vai continuar pobre, porque a escola pública dificilmente vai dar as ferramentas necessárias para mudança de classe social no futuro.


  2. Sobre a facilidade (ou não) de retornar ao mercado de trabalho.


  Bem, outro assunto que também que vai depender de cada um e de cada profissão específica. A vantagem de retomar a carreira no Brasil é que você volta a ter milhares de oportunidades, bastante diferente das oportunidades de um estrangeiro em um país de idioma e hábitos diferentes. O grande pulo do gato aqui são os concursos públicos. Aqui você pode depender de "networking"também, mas a liberdade de fazer um concurso público aqui é incomparável. Existem seleções públicas na Holanda, eu mesma consegui meu emprego de professora lá assim, mas é muito mais raro. Qual a desvantagem disso no Brasil? a corrupção, claro. Sabemos que nem todo concurso é honesto, daí, além de ter que estudar apara as provas, ainda tem que dar sorte do concurso ser honesto. Quem exercia profissões bem remuneradas lá fora, porém mal remuneradas e pouco especializadas aqui no Brasil vai realmente sentir a diferença, tanto com relação aos salários quanto com relação ao enorme número de candidatos para cada vaga.

3. Sobre a violência e criminalidade.

  Bem, aí  eu admito que o que aparece nos jornais é quase sempre verdade mesmo. A violência e criminalidade no Rio são muito grandes ainda. Não sei dizer se está melhor ou pior que há 10 anos atrás porque ainda não vejo isso com a normalidade que as pessoas daqui vêem. Está, no mínimo, a mesma coisa. Essa parte é a que realmente me dá muita vontade de pegar o primeiro avião e voltar, embora nada de ruim nos tenha acontecido nesse último ano sob esse aspecto. Mas também não aconteceu porque eu sei que "não posso dar mole". Aqui eu tiro o relógio quando vou à rua e não uso celular, tablet ou laptop em lugares públicos. Nada de andar na rua de madrugada e nem parar em sinais fechados tarde da noite. Também evito lugares "perigosos". E sabe qual o meu maior problema com isso? as pessoas acham tudo isso NORMAL. Eu, que vivi uma realidade onde todos usam laptops e tablets no trem, andam a qualquer hora do dia e da noite desacompanhadas e em qualquer lugar, continuo achando assustador viver essa falta de liberdade, onde se você desobedece as "regras", corre o risco de perder a vida. Em outros lugares do Brasil eu sei que esse tópico não seria o problema, então pra quem pretende voltar para cidades mais calmas, ainda tá valendo.

   E não há UPP que resolva, até que as diferenças sociais não tenham se resolvido :(

4. Sobre a adaptação dos meninos.


   Victor e Daniel já estão super bem adaptados aqui, mas continuam sentindo saudades da Holanda, da escola e dos amigos. A síndrome do regresso não é caso deles; o caso deles seria o nosso, quando imigramos para a Holanda: é choque cultural, adaptação e aculturação mesmo. Ainda bem, pois o processo é mais rápido e fácil!

   Os dois começaram a ler e escrever em português após cerca de um mês na escola. Tiram notas excelentes e estão acostumados com a rotina escolar daqui. O sistema é bem diferente aqui na Terrinha, e ainda se valoriza mais a memorização que o raciocínio, mas vamos levando, afinal as crianças se adaptam rápido e eles trazem na bagagem uma boa base, um bom começo.

   Estou morando em um condomínio e eles adoram. Vão à piscina e jogam bola quase todos os dias e já têm vários bons amigos. Dizem gostar de morar mais aqui do que na Holanda...rs

  O pai os visita quando está no Brasil; não os vê todos os dias porque está em outra cidade, mas acredito que o contato tenha melhorado até. Eu casei de novo e estão se dando super bem com o padrasto e levam a situação toda com extrema leveza. Eu tentei fazer tudo parecer normal e parece que funcionou :)

  Quanto aos idiomas, eles melhoraram muito no português (óbvio...rs), mas ainda trocam tempos verbais e gêneros de palavras; aprenderam gírias e falam com muito mais fluência. O holandês falam entre eles e com o pai, então acho que está relativamente assegurado. O inglês é o que mais me preocupa, porque o único contato é na TV. Eles preferem assistir tudo em inglês como era antes, mas se formos ao cinema é muito difícil ter filmes legendados hoje em dia (não sei o que houve nesses últimos 10 anos!). Penso em mais tarde colocar num curso de inglês para recuperar, mas agora não é uma boa ideia porque o que ensinam nos cursos para as idades deles é muito muito basiquinho.



   Enfim, eu conheço várias brasileiras que voltaram pro Brasil depois de vários anos fora (maioria da Holanda) e não se arrependeram, continuam aqui e felizes. Outras resolveram retornar à Holanda (sei de uma) e também estão bem. O sucesso do retorno ao Brasil, em todos os casos, aconteceu com gente que conseguiu voltar ao mercado de trabalho e que tinha profissões cujos salários são relativamente bons.



Bem, vou ficando por aqui e aguardo comentários para discutir os próximos assuntos. Querendo saber sobre alguma coisa específica, não hesite em perguntar :)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Falando difícil

         Aqui em casa a mesada funciona de modo diferente. Ganha dinheiro quem cumpre as obrigações. E eles levam a coisa muito à sério mesmo! Por exemplo, acordar para ir para a escola sem resmungar e se arrumar sem enrolação vale 1 real; caso se chegue atrasado na escola por algum motivo desses, o real daquele dia é perdido.

      Daí que outro dia estávamos já correndo contra o tempo e bendito do elevador não chegava. Até nos darmos conta de que o treco estava quebrado (para variar) e descer cinco andares de escadas com mochilas e sono, lá se foram uns 5 minutos. E entre afobação e pulinhos apressados nos degraus, Victor vai me explicando:

- Olha mamãe, mesmo se a gente chegar atrasado hoje, vamos ganhar um real, não é? afinal não foi nossa culpa o elevador ter quebrado: isso foi uma ADVERSIDADE.

Posso com isso?!


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       Semana passada fomos novamente visitar Petrópolis porque da outra vez o Museu Imperial estava em greve. Os meninos, especialmente Victor, estavam empolgados para conhecer a família real das aulas de história. Nossa, como se divertiram! A coroa foi a coisa favorita do dia; os móveis suntuosos arrancaram expressões de surpresa e a feiura dos imperadores também foi um dos temas para discussão. Ficaram chocados com a escravidão e com a maldade dos europeus da época. Divertiram-se fazendo as contas das idades que as pessoas tinham quando morreram. E aí calcularam que Dona Maria, a louca, havia partido dessa para melhor aos 39 anos de idade. Ficaram perguntando, incansavelmente (quem é mãe me entende...rs), sobre a causa da morte de Dona Maria tão nova e é claro que eu não sabia. Na segunda-feira, voltando no carro da escola, eles disseram ter desvendado o grande mistério.
 
- Mamãe, a gente já sabe como morreu D. Maria louca! (Victor)
- É? e do que foi?
- Ela subiu numa pedra e pulou. (Victor)
- Sério??? e por que ela fez isso, gente???
- Porque ela era louca e achava que podia voar, ué. (Daniel)
- Nossa, então era louca mesmo porque todo mundo sabe que quem voa é passarinho, né?
- Sim, ela deveria ser a monarca mas nunca GOVERNARA, pois era louca. (Victor)


E eu achando que teriam dificuldade no português. Quantas crianças, na idade deles, usam essas palavras?

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Rapidinha da copa

   Victor agora tem outra matéria favorita na escola. Além da matemática, ele virou fã de história. Hoje de manhã ele teria prova sobre a invasão holandesa no Brasil. No carro, como em todos os outros dias, íamos ouvindo rádio para poder acompanhar as notícias do trânsito:

      A seleção holandesa desembarcou no aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim, na Ilha do Governador, às 5 horas da manhã de hoje...


- Mamãe! que isso? Outra invasão holandesa???
- Não, Victor: SELEÇÃO holandesa.
- Ai, que susto! achei que tinha outra invasão da Holanda para roubar nosso açúcar e ouro...ufa, né?


      Hoje a seleção da Itália também desembarca no Galeão, mas segue diretamente para Angra dos Reis...

- Aí, tá ouvindo? a SELEÇÃO da Itália também está chegando para a copa.


  Nisso, Daniel pergunta, muito surpreso:

- Ué, a " world copa" vai ser aqui????
- Vai, meu amor. Você não sabia? Você até tem o álbum de figurinhas da copa do BRASIL, não é?
- E você comprou os ingressos pra gente ver o jogo sentado lá de verdade??? (sorriso enorme)
- Não, meu amor, não tem mais ingresso: acabou tudo.
- Mamãe, quantos ingressos eram?
- Sei lá, um montão.
- Mais de cem mil, né, mamãe? - pergunta Victor.
- Sei lá, acho que sim.



    Aí Dandan se aborrece de verdade:


- Pôxa, mamãe! Com TANTO ticket, você não comprou NENHUM???


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Essa mamãe é uma incompetente! :(

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

E continuo preocupada com o bilinguismo...

Quando decidi voltar pro Rio, tive várias dúvidas.

Preocupava-me a adaptação à nova escola, já que o sistema de ensino aqui é bem diferente do da Europa; preocupava-me a minha própria adaptação à nova realidade profissional: passar de funcionária pública na Holanda a bolsista sem nenhum direito trabalhista no Brasil; preocupava-me que eles não se acostumassem a morar numa casa (muito) menor; preocupava-me a drástica diminuição da convivência com o pai; preocupava-me o calor e a dengue etc etc etc. Mas o que mais me encafifava mesmo era como manter os idiomas a partir do momento da mudança, aqui no Brasil.

Além da falta do convívio diário com o inglês e o holandês, o povo brasileiro não está acostumado com crianças que falam fluentemente mais de um idioma. As pessoas acham que a criança fica confusa, que vai ficar mal na escola, que é algum tipo de tortura psicológica que pais sádicos fazem os pitchucos passarem e mais um inumerável rol de absurdos. E nào se encabulam ao falar sobre tudo isso, em tom de crítica, na frente dos pequenos...

A adaptação na escola está indo (quase) bem. Eles estão lendo e escrevendo o português e acompanham tudo normalmente, mas ainda sentem falta da Holanda e, vez por outra, perguntam quando vão voltar para a escola "deles".

O holandês falam entre eles e com o pai, quando este está de visita ao Brasil. Eu também trouxe alguns CD's e DVD's, mas eles ainda nào se interessaram em usar. Na TV eles só assistem em inglês...ainda bem que tem o botãozinho na NET pra colocar idioma original! Mas e para explicar pro Daniel que botão pra holandês não existe?

Mas como eu sei que o aprendizado passivo (vendo TV) é precário, tentei convencê-los a usar uma estratégia elaborada por quem vos escreve: mamãe.


- Meus amores, mamãe teve uma idéia legal!!!
- Qual???
- Todos os dias nós vamos falar em inglês por uma hora. Podemos cantar musiquinhas, ler os livrinhos, fazer brincadeiras e tal. O que acham?
- NÃO!!!
- Como assim?
- Estamos "na" Brasil e aqui a gente fala português!
- Mas Victor, e quando formos visitar a escola na Holanda? como você vai lembrar de inglês para falar com os amigos?
- Mamãe, eu "tem" memória muito boa!
- E eu também, mamãe!


Como temos um novo membro na família, dotado de 4 patas e que late, tentei outra estratégia:

- Gente, o Yoshi tem que aprender a falar inglês e holandês como a gente. Vamos conversar com ele em inglês todos os dias?
- Mamãe, ele é um cachorrinho brasileiro e estamos no Brasil: temos que ensinar potuguês para ele. Por isso que eu falo português com ele!
- Mas e como ele vai aprender outras línguas como nós?
- Daniel está falando com ele em holandês, você não sabe?
- Mas e o inglês?
- Mamãe, ele é cachorro. Ele nào é assim tão esperto para aprender 3 línguas. Duas já tá bom: é o máximo que ele aprende!


 Tinha até esquecido do assunto e fui conversar sobre outra coisa com eles:


- Olha, a mamãe vai ter que viajar por uns dias. Papai vai ficar aqui com vocês.

Dandan foi logo protestanto:

- Nào! eu nào quero que você vá! ou então me leva!
- Nào pode, meu amor: você tem escola.
- Onde você vai, mamãe? - pergunta Victor.
- Vou na Holanda. Lembra que eu disse que teria que voltar quando eles me chamassem para virar holandesa igual vocês dois? pois é...me chamaram e eu tenho que ir.
- Você vai ser "landesa" também, mamãe?
- Vou sim. Nào é legal?

Aí é que Daniel realmente fica indignado:

- OLHA AQUI, MAMÃE: EU NÃO "VAI"FALAR "LANDÊIS" COM VOCÊ!!!!



ok, ok, agora eles vão uma vez por semana a uma professora particular de inglês para conversar e ler. Fazer o que?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Entendendo as famílias brasileiras

Victor anda se esforçando bastante para entender as relações humanas em Terras Canarinhas. E pela enésima vez eu tento apontar os exemplos:

- Mamãe, a gente vai agora pra casa da vovó do primo Pedro?

- Primeiro vamos encontrar a tia Clara no aeroporto. Lembra da tia Clara?

- A mamãe do Pedro?

- Não. Ela é a namorada do papai do Pedro. O primo Pedro mora com a mamãe e o PADRASTO e de vez em quando ele vai visitar o papai, que é o tio Roberto Cláudio. A tia Clara vai ter um neném, que vai ser irmã ou irmão do primo Pedro...e tia Clara vai ser a MADRASTA do Pedro. Tendeu? É bem legal, né? imagina ter 4 pessoas pra tomar conta da gente ao invés de só duas? ter duas casas, ganhar mais presentes de aniversário...

- E mais presente de natal!!! - completa Daniel.

- Sim, sim (...) mas então eu e Daniel também temos um padrastro!!!

- Tem? e quem é?

- O papai da Thamy, porque ela é minha irmã, ué!

- Não é assim que funciona, meu amor. É madrasta ou padrasto se morar com o papai ou com a mamãe.

- hmmm...então eu tenho uma madrasta!!!

- Tem? e quem é?

- É você, mamãe!!!

- Meu amor, lembra que mamãe e papai não moram mais na mesma casa? mamãe mora com você e Dandan e o papai vem visitar vocês dois.

- ah, é! eu esqueci!

- Além do mais eu já sou sua mamãe e não posso ser também sua madrasta.

- Não pode???

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E aí? alguma dica para explicar mais didaticamente? ;)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Professora sim, tia não.

 Ao fim do primeiro dia de escola em Terra Brasilis, Daniel já levantou uma dúvida mais que cruel:

- Mamãe, a professora também é minha tia?
- Não, meu amor.
- Então por que eu "tem" que chamar de tia?
- No Brasil as professoras também podem ser chamadas de tia, Dandan.
- Por que?
- Porque é um costume.
- O que é costume?
- It's a habit.

Victor logo vem em socorro do irmão:

- Mas se é professora e não é tia, porque as pessoas têm o habit...hummm...o "costrume" de falar "tia"?
- Ué, porque sim. Um costume muitas vezes não se explica...todo mundo faz e daí vira um costume. (ok, ok, eu não sabia o que responder)

[Pausa para dois pequenos cérebros pensarem]

- Mas mãe, eu não quero chamar a professora de tia!
- Então chame de "professora". Não tem problema.
- Mas e se ela não souber que é "professora"e achar que o nome dela é "tia" porque todo mundo chama de tia?


* Ui, ui, será que é muito cedo para introduzir Paulo Freire nas historinhas de antes de dormir? Minhas explicações não estão convencendo mais...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Mala e cuia

Nossa, já faz bastante tempo que não atualizo o blog! Algumas pessoas cobraram notícias por aqui e agora com um pouco mais de tempo, vou tentar atualizar as coisas J
Bem, desde a última postagem, a vida deu uma voltinha de 180 graus. Terminei o doutorado, separei e resolvi voltar pro Rio (não necessariamente nessa ordem...he he he). Desde outubro viemos de mala e cuia para a cidade maravilhosa continuar nossa aventura pela vida, que como é uma só, deve ser vivida e aproveitada até a última gota.
A decisão de voltar ao Brasil foi muiltifatorial, mas não vou me esticar muito no assunto. Algumas coisas me empurrando de lá para cá e outras me puxando de cá para lá e assim, quando me dei por conta, já estava em Terras canarinhas.
Groningen foi minha casa por 9 anos e lá aprendi muitas coisas novas, fiz amigos fantásticos e tive meus dois tesouros. A Holanda será minha segunda casa para sempre, com certeza. Ainda mais agora que tenho a cidadania e sou oficialmente holandesa. Alem dos amigos, sentirei muita falta dos colegas e alunos do HIT. Foi muito legal ter sido professora lá nesses últimos 2 anos.
Mas o Rio...ah, o Rio é o Rio! E quando disse que voltei para casa, isso aconteceu também profissionalmente. Voltei pro Fundão. Pro mesmo instituto. Pro mesmo laboratório. Então é casa MESMO.
Os meninos estão se acostumando bem, afinal eles falam o português desde sempre e todos os anos vinham de férias. Ainda sentem falta da Holanda, dos amigos e da escola, mas estamos aqui há apenas 2 meses e é natural. E não é coisa definitiva: só uma inversão. Ao invés de virem passar férias aqui, vão pra Holanda. Na escola vão muito bem. Já lêem em português e começam a escrever também. Eu tive muito receio no início, já que além de todas as mudanças na vidinha deles, a escola não era uma acostumada a lidar com crianças bilíngues.
E por enquanto estamos indo muito bem. O desafio agora é manter o inglês e o holandês, mas acredito que essa tarefa vai ser bastante complicada, uma vez que as oportunidades que o Brasil oferece ao aprendizado de outros idiomas são muito limitadas. Sem contar com o preconceito e falta de informação a respeito do assunto pela população de modo geral.

A síndrome do regresso ainda não bateu na minha porta; espero que passe longe, mas nunca se sabe. Já tenho alguns “causos” para contar, mas fica para uma próxima vez.









terça-feira, 16 de abril de 2013

Filosofando





 Novo questionamento do milênio:

Por que será que eu me sinto absurdamente livre quando vou ao Brasil?


Poderia sentir alegria, felicidade, tristeza, irritação, inquietação ou qualquer outra coisa. Mas e aí?




  LIBERDADE







terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


(Gonçalver Dias, 1843)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O último a saber

Semana passada fomos esperar Thamy no aeroporto em Amsterdam. Ela estava voltando do estágio na Espanha e os irmãos estavam com saudades!

- Pronto, é desse portão que ela vai sair. Vamos sentar aqui que o namorado da Peré já tá chegando.
- Namorado??? Mas eu não sabia que Thamy tinha um namorado!!!
- Tem sim, Victor. Ele já foi lá em casa, esqueceu? o Filmon, aquele que veio do país perto do país do Ammanuel e...
- Ah, eu sei quem é! mas achava que era só uma AMIGO! ninguém me disse que ele era NAMORADO!

Pena que não tenho foto para mostar a carinha de "sou sempre o último a saber! ha ha ha


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sobre a liberdade da imprensa.

Olá!

Faz tempo que eu não escrevo nada por aqui. A vida anda meio atolada, cheia de coisas para fazer. Ainda não tive nem tempo de contar sobre nossas férias no Brasil! Mas assim que tiver uma folga, o que provavelmente será quando acabar de escrever a tese, eu volto.

Mas hoje eu não poderia deixar de comentar uma coisa.

Faz (muito) tempo que os jornais e demais meios de comunicação brasileiros têm me irritado. E muito. Fico me perguntando se não têm mais o que fazer. Ou os jornalistas são patéticos e mal formados, ou acham que a população é imbecil e fútil. Ok, ok, concordo que com a pacificação as notícias de violência andam rareando e, como não se tinha o hábito de escrever sobre outras coisas, fica difícil pegar no tranco novamente. Mas cá entre nós: só tem notícia de novela e fofoca de artista! eu acho que os jornalistas entram em delírio triplo quando morre alguém (tragicamente ou famoso; melhor se for os dois) para poder combinar os assuntos direitinho.

Que tipo de formação têm nossos jornalistas? o que lêem? o que pensam? será que têm olhar mais amplo e que consegue fugir da visão do próprio umbigo? os das novelas? os das fofocas de pessoas famosas? ninguém é inteligente o suficiente para falar sobre coisas interessantes e de relevância para as pessoas e para o mundo? Que vergonha, heim?

E hoje, lendo as notícias do jornal, notei que os jornalistas se superaram!

Elba Ramalho, grande ícone da música popular brasileira e já uma senhora (embora "ainda nos trinques"), deu um show em Copacabana. E sabem o ÚNICO comentário que um tal meio de comunicação  fez?

Que ela usou um vestido vazado e daí as gordurinhas da barriga apareceram.

Será que as mamães dos ditos jornalistas tinham apenas essas gordurinhas nessa idade(*)? E será que tinham 1% do talendo dela? e como foi o show? e como vai a economia mundial? e como melhorou (ou não) a vida dos brasileiros menos favorecidos? e a vida dos monges do Tibet? ai, tanta coisa mais importante que gordurinha em barriga de cantora...

VOU TE CONTAR, VIU?

Ah, tem também uma outra artista que saiu com um vestido e sem sutiã, sabiam dessa?

VERGONHA!!!!

Caros "jornalistas", tomem vergonha na cara e justifiquem seus salários!

(*) só para constar: Elba Ramalho já passou dos 60 anos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Essa eu não poderia deixar passar!

Pois é, estamos de férias na terrinha! E fomos dar nossas voltinhas por Vitória...
Na volta ao Rio, eu com ouvido meio entupido por causa de uma gripe, achei que estivesse ouvindo errado o meu Danielzinho quase na hora da chegada de volta ao Rio:

- Mamãe, a gente tá "landando"?
- Nadando? não, meu amor, a gente tá VOANDO.
- Mas mamãe, a gente tá "landando"?
- Andando? não: VOANDO.
- É, eu "sabe"! mas a gente chega em quantas horas? já tá "landando?
- ah! aterrisando???
- é!!!

(*) landing é aterrisando em inglês.

domingo, 10 de junho de 2012

Xô preguiça!

 - Meus amores, vamos dar uma voltinha no parque?
 - Vamos!
 - Eu não "vai"! leva só o Daniel!
 - Mas, Victor, tá sol. Vamos lá pegar um solzinho?
 - Eu não "vai"! Prefiro ficar em casa, tô cansado!
 - Mas, Victor, mamãe já explicou que quando tem sol a gente tem que ir lá fora para poder fazer a vitamina D; você lembra pra que serve a vitamida D?
 - Eu não "vai"!
 -Mas e como é que você vai crescer sem vitamina D para os ossos? E esses dentes que estão caindo? Como é que vai nascer dente novo se você tem pouca vitamina D, lembra?


Daí ele levanta, acende  aluz da sala e diz:

 - Pronto, agora tem luz aqui dentro também. Não precisa mais sair!

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Por que eu não havia pensando nisso antes???

Que idioma você fala com seu(s) filho(s)?