terça-feira, 26 de maio de 2015

Sobre a escola

   Victor continua adorando contar tudo o que acontece na escola. Quem o conhece sabe como ele gosta de falar....sobre tudo e o tempo todo!


- Mamãe, você sabe qual é o nome do conjunto de ossos?
- Hmmm...qual é?
- Esqueleto!!!
- Que legal, é verdade.
- E o conjunto de esqueletos?
- Xi, essa é difícil.
- CEMITÉRIO!!!

- ha ha ha ha ha

- Mamãe, porque você está rindo? está errado?
-Ah, não é piada?
- Ué, eu acho que é cemitério. Eu só ACHO. E pelo menos eu tentei responder. Você poderia pelo menos não rir de mim por tentar, né, mamãe?

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Não foi por mal; eu pensei mesmo que ele estivesse fazendo piada. Tadinho!


quinta-feira, 12 de março de 2015

Aprendendo sobre emoções

     Levei Victor para tratar de sua primeira cárie (espero ser a última) e ele estava há vários dias bastante nervoso sobre isso. Ele ficou nervoso, chorou e eu segurei suas mãozinhas...geladas. Mas deixou tratar direitinho e depois foi me explicar:



- Mamãe, eu estava nervoso porque não sabia o que ia acontecer e achava que ia doer.

- Mas mamãe e tia Rosana não explicaram que não ia doer nada?

- Sim, mas dentista sempre tem instrumentos que podem ferir, então fiquei nervos, ué.

                             (pausa para pensar)

- Mamãe, as pessoas não choram somente de dor ou porque estão tristes: choram também quando estão nervosas.

- Verdade, como aconteceu com você hoje, não é?

- E também podem chorar de felicidade, não é?

- É sim. Você já chorou de felicidade, meu amor?

- Já!

- E quando foi isso?

- Quando eu descobri que você era minha mãe.

- Ué, mas você sempre soube disso!

- Não, mamãe. Quando eu nasci, eu olhei para você e descobri que você seria minha mãe: aí eu chorei de felicidade porque eu ia ter uma mãe legal!


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# Nào é uma coisinha fofa o meu meu amor? :)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Balanço de pouco mais de um ano

    Nossa, já faz mais de um ano que mudamos para o Brasil e as postagens estão bastante espaçadas. Em meu favor, posso dizer que as coisas andam bastante ocupadas por aqui. E quando sobra tempo, falta energia. 

    Bem, agora que as coisas estão começando a ficar mais estáveis, vou tentar escrever com mais frequência, já que volta e meia tem alguém escrevendo e querendo saber notícias. As amigas da vida real têm um contato mais frequente e sabem das novidades desse lado do globo, mas as virtuais ficam mais tempo sem saber o que anda acontecendo e, muitas vezes, querem saber sobre a vida aqui pois têm também vontade ou necessidade de voltar.

   A principal pergunta é se eu me arrependo de ter voltado. Acho esse tópico bem peculiar. Enquanto muitas brasileiras que moram no exterior querem voltar (não todas, mas uma boa parte), as pessoas aqui do Brasil continuam fantasiando uma vida de contos de fadas que supostamente existe no além-mar. Acham que tudo lá fora é melhor, mais luxuoso e mais tudo que aqui, o que não me surpreende porque o conhecimento que têm é o da viagem turística anual, quando se hospedam no Hilton e comem em restaurantes caros (que são mais baratos que os restaurantes caros daqui, mas tem que ver os salários também, né?). Ou um intercâmbio de alguns meses, onde ficaram ainda na fase de estarem apaixonados pela outra cultura (vide temas sobre choque cultural), e quando recebem do governo brasileiro uma quantia muitas vezes maior do que o povo local tem pra viver.
    
   Eu sinto sim falta da Holanda, mas também gosto de estar novamente no Rio. 

    A pessoa expatriada que sonha em voltar para o Brasil encontra muitas opiniões contrárias, especialmente de quem nunca morou fora e que não tem, portanto, propriedade de dizer nada, além de "pitacos" de expatriados que retornaram e que ainda sofrem da síndrome do regresso (em outro post falo disso, prometo) e cujas vidas profissionais aqui não foi tão bem sucedida quanto se era esperado.

   Cada caso é um caso em particular e não sou eu quem pode dizer que voltar é a melhor opção para todos, então vou tentar discutir sobre alguns tópicos de forma mais imparcial possível (se é que imparcialidade nesses casos existe...rs).

1. A parte financeira e profissional.


    Há 10 anos, quando saí do Brasil e fui morar na Holanda, os salários aqui não eram lá essas coisas. Hoje em dia eu vejo alguma melhora. Vou falar do salário dos professores e de pesquisadores bolsistas, que é o que eu conheço melhor. Hoje em dia acho que melhorou bastante. Quem ficou por aqui vai espernear, se jogar no chão e babar em protesto, mas eu observo a relação custo de vida-salário e comparo com 10 anos atrás da minha vida. Por exemplo: comparo o salário de professor iniciante do estado e o aluguel que eu pagava num apartamento de 2 quartos em um subúrbio do Rio. Há 10 anos atrás, o valor desse salário inicial era o valor do aluguel; hoje em dia, esse mesmo salário paga esse mesmo aluguel (inclusive fui ver exatamente no mesmo prédio) e ainda sobra mais ou menos 30%, o que dá pra pagar também o condomínio (que não dava antes). Na zona sul os valores de aluguéis subiram mais realmente, devido à Copa e às Olimpíadas. O mesmo vale para bolsas de doutorado e pós-doutorado, que há 10 anos atrás compravam menos coisas que o que pode-se comprar hoje em dia, além de serem em quantidade menor do que o que se oferece hoje em dia.

   Mas e por que os brasileiros reclamam tanto? 

   Eu não sei. Mas os vejo reclamando de falta de grana dentro de carros trocados a cada ano e com celulares de última geração que são também trocados a cada modelo novo que aparece no mercado. A vida que a classe média vive aqui é uma vida muito luxuosa se comparada com a  vida de classe média na Holanda, por exemplo. Eu fico pensando sobre como as pessoas imaginam que eu vivia na Terra dos tamancos...será que acham que eu morava em algum castelo e dirigia um BMW? e que tinha 8 empregados para suprir as minhas "necessidades"? E aqui ainda pode-se dividir os valores das coisas (beeem mais altos que na Europa, o que reforça a crença dos altos salários brasileiros) em 10 vezes sem juros!

 Mas e o salário mínimo? ah, aí é que está a diferença! a classe pobre do Brasil é realmente muito pobre ainda! o salário mínimo ainda não consegue suprir as necessidades básicas de uma família e as diferenças de classe social ainda são abismais. Na Holanda, quem é pobre não tem uma vida muito diferente de quem é classe média. Logo, para quem vive de salário minimo no Brasil, é muito mais vantajoso trabalhar na mesma coisa na Holanda sim. E quem tem alguma profissão melhor remunerada aqui, é melhor ficar por aqui mesmo.

  Existe também o folclore de que no Brasil se pagam os maiores impostos do mundo (mentira!) e que não existe retorno suficiente (verdade!). Os serviços prestados à população são muito melhores na Holanda que aqui. Vide as escolas que são gratuitas e de qualidade. Aqui no Brasil as escolas públicas, de modo geral mas com algumas memoráveis exceções, são de qualidade muito ruim. Aí vem a coisa da classe média pagar escola particular...é ruim, concordo, mas a diferença de salários entre as classes ainda é suficiente para acomodar essa despesa. E quem é pobre vai continuar pobre, porque a escola pública dificilmente vai dar as ferramentas necessárias para mudança de classe social no futuro.


  2. Sobre a facilidade (ou não) de retornar ao mercado de trabalho.


  Bem, outro assunto que também que vai depender de cada um e de cada profissão específica. A vantagem de retomar a carreira no Brasil é que você volta a ter milhares de oportunidades, bastante diferente das oportunidades de um estrangeiro em um país de idioma e hábitos diferentes. O grande pulo do gato aqui são os concursos públicos. Aqui você pode depender de "networking"também, mas a liberdade de fazer um concurso público aqui é incomparável. Existem seleções públicas na Holanda, eu mesma consegui meu emprego de professora lá assim, mas é muito mais raro. Qual a desvantagem disso no Brasil? a corrupção, claro. Sabemos que nem todo concurso é honesto, daí, além de ter que estudar apara as provas, ainda tem que dar sorte do concurso ser honesto. Quem exercia profissões bem remuneradas lá fora, porém mal remuneradas e pouco especializadas aqui no Brasil vai realmente sentir a diferença, tanto com relação aos salários quanto com relação ao enorme número de candidatos para cada vaga.

3. Sobre a violência e criminalidade.

  Bem, aí  eu admito que o que aparece nos jornais é quase sempre verdade mesmo. A violência e criminalidade no Rio são muito grandes ainda. Não sei dizer se está melhor ou pior que há 10 anos atrás porque ainda não vejo isso com a normalidade que as pessoas daqui vêem. Está, no mínimo, a mesma coisa. Essa parte é a que realmente me dá muita vontade de pegar o primeiro avião e voltar, embora nada de ruim nos tenha acontecido nesse último ano sob esse aspecto. Mas também não aconteceu porque eu sei que "não posso dar mole". Aqui eu tiro o relógio quando vou à rua e não uso celular, tablet ou laptop em lugares públicos. Nada de andar na rua de madrugada e nem parar em sinais fechados tarde da noite. Também evito lugares "perigosos". E sabe qual o meu maior problema com isso? as pessoas acham tudo isso NORMAL. Eu, que vivi uma realidade onde todos usam laptops e tablets no trem, andam a qualquer hora do dia e da noite desacompanhadas e em qualquer lugar, continuo achando assustador viver essa falta de liberdade, onde se você desobedece as "regras", corre o risco de perder a vida. Em outros lugares do Brasil eu sei que esse tópico não seria o problema, então pra quem pretende voltar para cidades mais calmas, ainda tá valendo.

   E não há UPP que resolva, até que as diferenças sociais não tenham se resolvido :(

4. Sobre a adaptação dos meninos.


   Victor e Daniel já estão super bem adaptados aqui, mas continuam sentindo saudades da Holanda, da escola e dos amigos. A síndrome do regresso não é caso deles; o caso deles seria o nosso, quando imigramos para a Holanda: é choque cultural, adaptação e aculturação mesmo. Ainda bem, pois o processo é mais rápido e fácil!

   Os dois começaram a ler e escrever em português após cerca de um mês na escola. Tiram notas excelentes e estão acostumados com a rotina escolar daqui. O sistema é bem diferente aqui na Terrinha, e ainda se valoriza mais a memorização que o raciocínio, mas vamos levando, afinal as crianças se adaptam rápido e eles trazem na bagagem uma boa base, um bom começo.

   Estou morando em um condomínio e eles adoram. Vão à piscina e jogam bola quase todos os dias e já têm vários bons amigos. Dizem gostar de morar mais aqui do que na Holanda...rs

  O pai os visita quando está no Brasil; não os vê todos os dias porque está em outra cidade, mas acredito que o contato tenha melhorado até. Eu casei de novo e estão se dando super bem com o padrasto e levam a situação toda com extrema leveza. Eu tentei fazer tudo parecer normal e parece que funcionou :)

  Quanto aos idiomas, eles melhoraram muito no português (óbvio...rs), mas ainda trocam tempos verbais e gêneros de palavras; aprenderam gírias e falam com muito mais fluência. O holandês falam entre eles e com o pai, então acho que está relativamente assegurado. O inglês é o que mais me preocupa, porque o único contato é na TV. Eles preferem assistir tudo em inglês como era antes, mas se formos ao cinema é muito difícil ter filmes legendados hoje em dia (não sei o que houve nesses últimos 10 anos!). Penso em mais tarde colocar num curso de inglês para recuperar, mas agora não é uma boa ideia porque o que ensinam nos cursos para as idades deles é muito muito basiquinho.



   Enfim, eu conheço várias brasileiras que voltaram pro Brasil depois de vários anos fora (maioria da Holanda) e não se arrependeram, continuam aqui e felizes. Outras resolveram retornar à Holanda (sei de uma) e também estão bem. O sucesso do retorno ao Brasil, em todos os casos, aconteceu com gente que conseguiu voltar ao mercado de trabalho e que tinha profissões cujos salários são relativamente bons.



Bem, vou ficando por aqui e aguardo comentários para discutir os próximos assuntos. Querendo saber sobre alguma coisa específica, não hesite em perguntar :)

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