quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A vantagem bilíngue

Há cerca de 2 semanas atrás eu estava na estação de trem de Groningen pronta para enfrentar um trem até Zwolle para levar uns documentos ao departamento de imigração. Sempre que estou na estação, gosto de ir numa livraria que tem lá e ver se tem alguma revista interessante. Dessa vez comprei uma “Scientifc American Mind” e, para minha surpresa, tinha um artigo bastante interessante sobre bilinguismo infantil. Vários pontos no artigo eu já discuti em textos anteriores, mas algumas novidades me animaram e resolvi dividir com vocês.

Como já sabemos, a maioria da população do mundo cresce em ambiente bi ou multilíngue e, portanto, o bilinguismo é a regra e não exceção. Em países monolíngues, como por exemplo nos Estados Unidos e no Brasil, as pessoas costumam acreditar que a exposição de crianças muito pequenas a mais de um idioma por vez pode levar a atrasos de desenvolvimento de fala e até mesmo a não aprender “direito” o idioma majoritário. Na verdade isso não passa de preconceito e falta de informação mais atualizada.
Até meados do século XIX, nos Estado Unidos, o bilinguismo era comum, mas daí os sentimentos negativos com relação aos imigrantes começaram a aflorar e os psicólogos da época começaram a proclamar que a exposição de crianças a mais de um idioma levava à inferioridade intelectual, ou seja, à burrice como se diz em bom português. Esse conceito começou a ser modificado na década de 60, mas ainda existia a idéia geral de que a criança precisava escolher um idioma “dominante”, já que o cérebro humano estaria preparado para aceitar uma única lingua. De acordo com essa hipótese, a mente da criança bilíngue estaria em constante estado de guerra sobre qual idioma usar, o que levaria a atrasos de desenvolvimento e a confusões mentais. Tem gente que ainda pensa assim, não é verdade? Eu escuto pérolas desse tipo vez por outra e, quando estou no Brasil, ouço diariamente…um saco!

Mas as pesquisas científicas mais atuais apontam para exatamente o oposto disso!

Um marco importante no estudo do bilinguismo foi um estudo feito em 2001, onde mostrou-se que crianças expostas a mais de um idioma antes dos 10 anos de idade atingiram todas as fases de desenvolvimento linguístico (como aprenderem as primeiras palavras e serem alfabetizadas) na mesma época que as crianças criadas em ambientes monolíngues. E não apresentaram NENHUM sinal de “contaminação” verbal (quando o idioma não é falado corretamente, supostamente por causa de outra língua) ou de confusão mental. Estudos que se seguiram a esse, confirmaram que não só a criança não fica “confusa”, como também já sabe diferenciar os dois idiomas desde muito cedo, ainda bebê. O interessante é que isso já é observado na maior parte do mundo, que é bi ou multilígue e as crianças são perfeitamente normais, mas dessa vez foi num ambiente científico controlado.

No ano de 2008, um estudo comprovou que crianças americanas que frequentavam escolas bilíngues (espanhol-inglês), obtinham melhores resultados em testes de leitura da língual inglesa do que aquelas que frequantavam escolas com programas exclusivamente em inglês. De lá pra cá, seguiram-se outros estudos que enfatizam que o bilinguismo, além de não atrapalhar no desenvolvimento escolar do idioma majoritário, ainda ajuda!

Em um estudo europeu muito interessante de 2009, pesquisadores descobriram que bebês de cerca de 7 meses de idade, criados em bilinguismo desde o nascimento, se adaptam muito mais rápido à mudanças de regras que seus pares monolíngues. Em seguida, foi publicado um estudo mostrando que crianças bilíngues, em idade que já podiam falar, obtinham resultados melhores relacionados às suas capacidades cognitivas que o grupo monolíngue.

Em 2010, uma pesquisa confirmou que crianças entre 4 e 5 anos de idade mostram maior criatividade e melhor capacidade de pensamento abstrato em relação a seus pares monolíngues. Outras pesquisas indicam que crianças de 7 anos de idade já apresentam, claramente, uma memória melhor quando criadas em bilinguismo. Eu que o diga! Aqui em casa eles têm uma memória maior que a de elefante!

Em 2010, Ellen Byalistock demonstrou que ser bilíngue protege contra demência. Pacientes que sofrem de mal de Alzheimer foram separados em 2 grupos: monolíngues e bilíngues. Os pacientes bilíngues, mesmo os que apresentaram maiores danos cerebrais que os monolíngues, apresentavam menos sintomas de demência, o que leva-nos a pensar que as mudanças cerebrais causadas pelo bilinguismo são suficientes para compensar os danos que essa doença provoca.
E as vantagens do bilinguismo parecem não se limitar apenas à infância; os benefícios se extendem à vida adulta até idade bem avançada.

Mas e aprender mais que 2 idiomas? Será que os benefícios são também proporcionais ao número de línguas que uma pessoa é capaz de “maestrar”?

Em 2011, uma pesquisa conduzida em Luxemburgo com 230 homens e mulheres idosos mostrou que cerca de 75% das pessoas que falam de 3 a 7 idiomas estão em melhores condições mentais do que os que falam apenas 2 idiomas. Isso demosntra que quanto maior o número de idiomas aprendidos, maiores são os benefícios cerebrais mesmo a longo prazo. É como se aprender idiomas desde a infância formasse um campo-de-força protetor das abilidades cognitivas do cérebro!

Mas uma das coisas que tem intrigado os pesquisadores é como o cérebro do “bilíngue de berço” favorece diversos aspectos e não somente o da linguagem (benefícios não-verbais). A flexibilidade mental, o pensamento abstrato e a memória de trabalho (um tipo de memória de curto prazo que é essencial para aprendizado e capacidade de resolver problemas) são exemplos dessas vantagens. O esperado seria que o exercício mental para falar mais de um idioma levasse ao desenvolvimento da área específica para a linguagem no cérebro. É mais ou menos como você estar na musculação exercitando os braços e no fim você também fortifica as pernas, perde a barriga e torneia todo o seu corpo!

Todas essas diferenças cognitivas, verbais e não-verbais, nos indicam que o aprendizado precoce de um outro idioma modifica a estrutura do cérebro em desenvolvimento em diversas áreas anatômicas. Não é interessante? É mais ou menos como uma aeróbica cerebral!

Uma nova técnica de neuroimagem que não é invasiva e está sendo usada para comparar cérebros de crianças bilíngues x monolíngues revelou que as áreas cerebrais de linguagem se desenvolvem de modo igual tanto nos monolíngues quanto nos bilíngues, mas nos bilíngues outras regiões cerebrais são mais ativas que nos monolíngues, , como por exemplo o córtex frontal inferior, que é responsável tanto por linguagem quanto por habilidade de pensamento.

Esses achados são IMPORTANTÍSSIMOS e se encaixam perfeitamente na idéia amplamente aceita de que aprendizado e educação diminuem o declínio das atividades através do aumento da capacidade geral de pensamento do cérebro (exercício cerebral, “quanto mais se estuda mais capacidade de aprender se tem”).

Esses estudos atuais também ajudam a desvendar o velho mistério do que veio antes, se o ovo ou a galinha (biologicamente falando não tem mistério: foi o ovo, quem quiser saber explico melhor, pode perguntar!), podemos fazer a seguinte suposição: já que as capacidades cognitivas de uma pessoa também vão influenciar a sua habilidade de aprender outro(s) idioma(s), será que os bilíngues já não tinham essas vantagens cognitivas independentes e anteriores ao bilinguismo? Ou seja, você é mais inteligente e por isso se torna bilíngue ou você é bilíngue e por isso se torna mais inteligente?

Bem, parece que o mistério está prestes a ser desvendado, assim como o biologico (ovo-galinha) já o foi. Fortes indícios apontam que crescer bilíngue por si só pode causar mudanças cerebrais benéficas, como por exemplo o aumento da densidade de neurônios em certas áreas importantes par o funcionamento cognitivo. Ou seja: ser bilíngue torna pessoas mais “espertas” em certos aspectos.

Já é fato consumado, pelo menos nos meios científicos, que a melhor maneira de se tornar proficiente em mais de um idioma é a exposição sistemática e diária desse outro idioma e desde idade precoce, preferencialmente desde o nascimento.

Crianças crescendo em ambientes multilíngues, como em família de pais de nacionalidades diferentes, podem usufruir dessas vantagens naturalmente quando os pais falam rotineira e exclusivamente em seu idioma materno com os pequenos. Para crianças oriundas de ambientes monolíngues,ainda há opções, mas elas devem ser instruídas de maneira mais intensiva e sistemática e uma solução pode ser uma escola de imersão, que leciona algumas disciplinas em um idioma não-majoritário. Aqui em casa aproveitamos essas duas opções: falamos português e holandês em casa (sem nunca usar o idioma "errado”com cada pessoa) e os meninos também frequentam escola que é em inglês.

Algumas crianças tornam-se fluentes e outras nem tanto (isso varia de acordo com vários fatores ambientais, como por exemplo se os pais são consistentes em falar apenas o idioma materno e não “misturar”as conversas com o idioma local), mas os benefícios são mais do que claros e os pesquisadores acreditam que toda criança deveria ter a chance de se tornar bilíngue. Eu concordo plenamente com isso e dou essa chance a meus meninos. E estamos indo bem :)

E você, também dá chance de seus filhos aproveitarem ao máximo o bi ou multilinguismo?

14 comentários:

Eliana disse...

Eu não tenho filhos, então não posso compartilhar de opiniões. Mas é uma pena ver que alguns "selecionam"o que é lingua importante. Por exemplo, negar o português e achar que o inglês/holandês é muito mais importante para o filhos saber. Sinto muitissimo quando vejo mães negando a língua materna e assassinando o outro idioma ao falar com os filhos.E quando a mãe fala com o filho na sua língua e ele se recusa a interagir e só responde no outro idioma? O que fazer? Entender ele entende, mas falar em português, passou longe...

Adriana disse...

Eliana,
Pelo que observo, a crianca vai responder em outro idioma se a mae nao for consistente no uso do portugues.
Eu sempre conversei apenas em portugues, qq hora, qq lugar, na frente de qq um. E quando falam alguma coisa em holandes/ingles no meio da frase (quase nunca acontece mais), eu repito falando de modo correto. E eles repetem tb...jah virou habito.
Agora perguntam antes quando nao sabem a palavra.
E se persistirem em ouvir em um idioma e responderem em outro (muito raramente, soh lembro uma vez de ter acontecido pq Daniel queria "mostrar" que sabia ingles), eu "nao entendo" o que estao falando e peco pra falar em portugues.

camila guimarães dantas disse...

Adorei o post, Adriana. Concordo totalmente sobre as vantagens de ser binlíngue. Agora fiquei curiosa com uma coisa: vc optou por uma escola em inglêns por alguma razão especial?
Abraços. Camila

Anderson e Rose disse...

Oi Adriana, gostei muito do seu post e já compartilhei!

O que eu acho legal na comprovação cientifica é que ela serve para calar o "achismo" exagerado que tanto ouvimos por ai, e melhor que isso comprova que nós no Brasil somos exceção e não regra...o que é uma pena em vários aspectos (sociais, culturais e econômicos).
Abraços,
Anderson

Adriana disse...

Camila,
Foram varias as razoes, mas as principais foram que eles aprenderiam um terceiro idioma, a escola eh uma das melhores da cidade, as turmas sao pequenas e nao existe orientacao religiosa.

Adriana disse...

ah, sim, uma coisa importantissima eh que eu queria que eles se sentissem "normais". Lah todas as criancas falam pelo menos 3 idiomas e eu naoq ueria que eles chegassem numa idade que tivessem vergonha de falar portugues pra nao serem diferentes.

Adriana disse...

Gente, o texto ta cheio de erros, ams eu escrevi `a noite e meu word eh novo...e tava corrigindo pra grafia em frances...nao me pergutem o por que...hahaha
Vou checar de noite de novo.

Anderson,

Eh verdade!

camila guimarães dantas disse...

Adriana, obrigada pela resposta. Pois é ..eu nem pensei nessa opção porque estava de início pensando que les precisariam aprender holandês primeiro..enfim, mas ainda vejo uma vantagem a mais é que assim eu ficaria super a vontade no ambiente escolar, coisa que atualmente não ocorre pois quando paricipo de um evento, e me encarrego de cuidar de algumas crianças peno pra me fazer entender...Vivendo e aprendendo. Valeu!

Adriana disse...

É Camila, isso tb é uma vantagem. Eu entendo tudo o que vem da escola, converso com professores pais e até com as crianças...tb sempre vou a eventos de voluntária e não tem problema de comunicação.
E posso ajudar na dover de casa (maior parte é leitura)

Anônimo disse...

parabens pelo artigo.Muito bem escrito e relevante.
um abraço

Sheila disse...

Olá Adriana,

Somos uma familia de brasileiros, eu e meu marido viemos em 93 para cá, e nossos filhos tinham na época 6 e 7 aninhos. Nosso idioma em casa era exclusivamente o português, eu tinha a vantagem de ter um marido brasileiro, isso ajuda.

Dois anos depois tivemos nosso caçulinha, e tb só falávamos o português.

Muitas vezes ouvi de professores que o fato de falarmos português em casa prejudicaria o desempendo escolar das crianças. Nunca dei ouvidos, hoje minha filha mais velha trabalha como professora de dança e em musicais, e tb numa academia de fitness. Fez dois HBO'S. Meu filho do meio estudou em Delft, fez mestrado em telecomunicações e hoje trabalha na ATKearney.E graças ao português, foi enviado pela emprêsa à Moçambique por 2 mêses para fazer um projeto para a Vale. Meu caçulinha vai para o 5 VVO. Sou uma mãe coruja e orgulhosa, como vc pode perceber, e não tenho nenhuma duvida de que qto mais idiomas aprenderam na infância, melhor!!!

Sucesso e um abraço!

Adriana disse...

Parabéns, Sheila!

Cmila, mas ainda não dá pra trocar?

Priscila disse...

OI Adriana.... pocurando no google sobre bilinguismo, caí no teu blog e adorei esse post... posso compartilhar no meu FB?
Obrigada e Parabéns pelo blog, muito legal :)

Adriana disse...

Claro, Priscila, fique à vontade :)

Que idioma você fala com seu(s) filho(s)?