sábado, 6 de junho de 2026

O que a ciência realmente diz sobre manter o português vivo fora do Brasil?

 

Se você chegou até este texto pelo Instagram, provavelmente viu um vídeo em que eu falava sobre crianças que entendem português, mas respondem apenas na língua do país onde vivem.

Se esse é o seu caso, saiba que você está longe de estar sozinha.

Ao longo dos anos, conversando com outras mães brasileiras aqui na Holanda, percebi que existe uma preocupação recorrente:

"Meu filho entende tudo em português, mas só responde em holandês (mas poderia ser em inglês ou em alemão, dependendo do país...). O que aconteceu?"

A resposta curta é: provavelmente nada de anormal.

A resposta longa é que manter uma língua de herança — como o português para famílias brasileiras vivendo no exterior — é um processo muito mais complexo do que simplesmente falar português dentro de casa.

O que mudou nos últimos quinze ou vinte anos?

Quando meus filhos eram pequenos, eu lia praticamente tudo o que conseguia encontrar sobre bilinguismo infantil.

Uma das pesquisadoras que mais influenciaram minha forma de pensar foi dr. Barbara Zurer Pearson, autora de Raising a Bilingual Child (2008). E foi inspirada por essas leituras que comecei a escrever meus primeiros textos sobre bilinguismo para a comunidade brasileira ainda no final dos anos 2000.

Recentemente reli alguns desses textos. E foi interessante perceber uma coisa: muitas das ideias centrais continuam atuais.

O que mudou não foram necessariamente os princípios básicos, mas a quantidade de evidências que temos para sustentá-los. Hoje contamos com estudos maiores, metodologias mais robustas e uma compreensão mais detalhada dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento bilíngue.

Em outras palavras: a pesquisa avançou muito, mas vários dos fatores que já pareciam importantes há quinze anos continuam aparecendo repetidamente nos estudos mais recentes.

E não existe uma fórmula mágica!

Na verdade, acho que isso é uma boa notícia. Significa que não precisamos contar com "forças ocultas", talentos especiais para idiomas ou alguma característica misteriosa da criança. Existem fatores que podemos compreender, observar e, até certo ponto, influenciar no dia a dia da família.

 Então vamos lá? Vamos falar de alguns dos fatores que a ciência considera importantes para ajudar nossos curumins a manter vivo o nosso português. 😊

1. Exposição: a criança precisa ouvir português

Este é provavelmente o fator mais intuitivo: nenhuma criança aprende uma língua sem ser exposta a ela.

Só que isso também significa muito mais do que simplesmente ouvir algumas palavras durante as férias ou numa chamada de vídeo com os avós. A criança precisa viver a língua.

Precisa ouvir histórias. Participar de conversas. Fazer perguntas. Escutar explicações. Brincar. Cantar.

Pesquisadores como Erika Hoff vêm mostrando há muitos anos que a quantidade e a qualidade da exposição influenciam diretamente o desenvolvimento linguístico.

Isso parece óbvio, certo?

Mas existe um detalhe importante: muitas famílias acreditam que exposição, sozinha, é suficiente.

E a exposição é realmente fundamental, mas as pesquisas mais recentes sugerem que ouvir uma língua não é a mesma coisa que usá-la.

Uma criança pode entender perfeitamente o português e ainda assim preferir responder em holandês, inglês ou na língua do país onde vive.

É aqui que entra o segundo fator.

2. Necessidade: a criança precisa perceber utilidade na língua

Vamos imaginar uma situação comum.

Uma criança brasileira vivendo na Holanda.

Ela vai à escola em holandês. Brinca em holandês. Pratica esportes em holandês. Assiste televisão em holandês. Conversa com amigos em holandês. E descobre que os pais entendem perfeitamente quando ela responde em holandês.

Pergunta sincera:

Por que ela escolheria responder em português?

O linguista François Grosjean costuma enfatizar aquilo que chama de princípio da necessidade.

Nós utilizamos as línguas que precisamos utilizar. E isso vale para adultos e crianças.

Quando uma língua tem uma função clara na vida da criança, ela tende a ser mantida com mais facilidade.

A necessidade de falar o português pode surgir de várias formas:

  • avós que falam apenas português;
  • primos no Brasil;
  • amigos brasileiros;
  • viagens;
  • atividades culturais;
  • comunidades de falantes;
  • ou até um personagem, brinquedo ou bichinho de estimação que "só entenda português".

Quanto mais a criança percebe que o português tem um papel real na sua vida, maiores tendem a ser as chances de mantê-lo ativo.

Mas perceber utilidade não é o mesmo que usar a língua.

Uma criança pode saber que o português é importante para conversar com os avós, para viajar ao Brasil ou para manter contato com a família, e ainda assim falar relativamente pouco.

E é aqui que as pesquisas mais recentes trouxeram uma contribuição particularmente interessante. Durante muito tempo os pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança ouvia. Hoje sabemos que ouvir uma língua é importante, precisar dela também, mas o próprio ato de falar parece desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento linguístico.

3. Uso ativo: ouvir não basta

Aqui encontramos uma das contribuições mais interessantes das pesquisas mais recentes.

Durante muito tempo os pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança escutava. Mais recentemente começaram a estudar aquilo que a criança falava.

E os resultados ajudam a explicar algo que muitos pais observam na prática: algumas crianças entendem perfeitamente o português, mas parecem ter dificuldade para responder.

Um estudo realizado em Singapura com crianças aprendendo mandarim como língua de herança trouxe um resultado bastante interessante.

Não era apenas a quantidade de mandarim que as crianças ouviam que fazia diferença.

Fazia diferença também o quanto elas utilizavam a língua. E, mais especificamente, em quantos contextos diferentes elas a utilizavam.

Quando uma criança fala uma língua, ela não está apenas reproduzindo palavras. Ela está: organizando pensamentos, selecionando vocabulário, construindo frases, recebendo feedback, corrigindo erros, praticando...

Em outras palavras: falar também é uma forma de aprender.

Isso ajuda a entender por que algumas crianças desenvolvem uma boa compreensão do português, mas têm mais dificuldade para utilizá-lo de forma espontânea.

A compreensão foi construída. Mas as oportunidades de uso ativo ficaram limitadas.

Quanto mais oportunidades nossos curumins têm para usar o português em situações reais, maiores tendem a ser as chances de que ele se torne uma língua viva, e não apenas uma língua compreendida.

4. Consistência: o ingrediente menos emocionante e talvez um dos mais importantes

Se eu pudesse escolher apenas uma palavra para resumir muitos dos estudos sobre bilinguismo familiar, provavelmente escolheria consistência.

Não porque exista uma regra única que funcione para todas as famílias, mas porque a linguagem se constrói através de milhares de pequenas interações repetidas ao longo do tempo.

Pesquisadoras como Annick De Houwer vêm mostrando há anos a importância daquilo que hoje chamamos de Family Language Policy — ou política linguística familiar.

Em termos simples: o que a família faz repetidamente importa. E muito!

Isso não significa rigidez nem muito menos transformar o português em uma obrigação. Não, não, não!!!

Mas significa que as crianças tendem a compreender melhor o papel de cada língua quando existem padrões relativamente estáveis no ambiente familiar, como por exemplo sempre falar em português com a mãe e holandês com o pai; ou sempre falar português em casa, inglês na escola e holandês com os amigos...e por aí vai.

Uma coisa é certa: o que ficou mais claro nas pesquisas dos últimos anos é que ouvir uma língua, embora seja fundamental, não é suficiente. O uso ativo da língua também é muito importante!

Em outras palavras: não basta que nossos curumins escutem português. Eles também precisam de oportunidades reais para usá-lo.

Então qual é a conclusão de tudo isso?

A ciência não oferece uma receita universal para criar crianças bilíngues ou multilíngues. Cada família tem sua própria realidade, seus próprios desafios e suas próprias estratégias.

Mas os estudos sugerem, de forma bastante consistente, que a manutenção de uma língua de herança tende a ser favorecida quando a criança recebe exposição significativa à língua, percebe utilidade nela, tem oportunidades reais para usá-la e vive em um ambiente relativamente consistente em relação às práticas linguísticas da família.

Parece simples. Na prática, sabemos que não é.

Especialmente quando estamos tentando equilibrar escola, trabalho, atividades extracurriculares, vida social e todas as demandas da vida real.

Mas entender esses fatores já é um excelente ponto de partida!

Nos próximos meses pretendo voltar a escrever mais sobre bilinguismo, língua de herança e os desafios de criar filhos entre culturas e idiomas diferentes. Afinal, depois de quase duas décadas estudando esse tema — e depois de criar dois filhos trilíngues aqui na Holanda — ainda tenho a sensação de que estamos todos aprendendo juntos.

Então me conte sua experiência. Depois de ler tudo isso, qual destes fatores parece ser o maior desafio na sua família neste momento?

É a exposição? A necessidade? As oportunidades de uso ativo? Ou a consistência?

Talvez a sua experiência inspire o próximo texto aqui no blog e umas coisas lá no instagram 😊


Quer se aprofundar no assunto?

  • Pearson, B. Z. (2008). Raising a Bilingual Child.
  • De Houwer, A. (2009). An Introduction to Bilingual Development.
  • Grosjean, F., & Pavlenko, A. (2021). Life as a Bilingual: Knowing and Using Two or More Languages.
  • Hoff, E., Core, C., Place, S., Rumiche, R., Señor, M., & Parra, M. (2011). Dual Language Exposure and Early Bilingual Development.
  • Bialystok, E., & Werker, J. F. (2017). The Systematic Effects of Bilingualism on Children's Development.
  • Sun, H., Waschl, N., & Veera, R. (2022). Language Experience and Bilingual Children's Heritage Language Learning.
  • Inan, S., & Harris, Y. R. (2025). Beyond the Home: Rethinking Heritage Language Maintenance as a Collective Responsibility.

 

Que idioma você fala com seu(s) filho(s)?