Se você chegou até
este texto pelo Instagram, provavelmente viu um vídeo em que eu falava sobre
crianças que entendem português, mas respondem apenas na língua do país onde
vivem.
Se esse é o seu caso,
saiba que você está longe de estar sozinha.
Ao longo dos anos,
conversando com outras mães brasileiras aqui na Holanda, percebi que existe uma
preocupação recorrente:
"Meu
filho entende tudo em português, mas só responde em holandês (mas poderia ser
em inglês ou em alemão, dependendo do país...). O que aconteceu?"
A resposta curta é:
provavelmente nada de anormal.
A resposta longa é que
manter uma língua de herança — como o português para famílias brasileiras
vivendo no exterior — é um processo muito mais complexo do que simplesmente
falar português dentro de casa.
O que mudou nos últimos quinze ou vinte anos?
Quando meus filhos
eram pequenos, eu lia praticamente tudo o que conseguia encontrar sobre
bilinguismo infantil.
Uma das pesquisadoras
que mais influenciaram minha forma de pensar foi dr. Barbara Zurer Pearson,
autora de Raising a Bilingual Child (2008). E foi inspirada por essas
leituras que comecei a escrever meus primeiros textos sobre bilinguismo para a
comunidade brasileira ainda no final dos anos 2000.
Recentemente reli
alguns desses textos. E foi interessante perceber uma coisa: muitas das ideias
centrais continuam atuais.
O que mudou não foram
necessariamente os princípios básicos, mas a quantidade de evidências que temos
para sustentá-los. Hoje contamos com estudos maiores, metodologias mais
robustas e uma compreensão mais detalhada dos mecanismos envolvidos no
desenvolvimento bilíngue.
Em outras palavras: a
pesquisa avançou muito, mas vários dos fatores que já pareciam importantes há
quinze anos continuam aparecendo repetidamente nos estudos mais recentes.
E não existe uma
fórmula mágica!
Na verdade, acho que
isso é uma boa notícia. Significa que não precisamos contar com "forças
ocultas", talentos especiais para idiomas ou alguma característica
misteriosa da criança. Existem fatores que podemos compreender, observar e, até
certo ponto, influenciar no dia a dia da família.
1. Exposição: a criança precisa ouvir português
Este é provavelmente o
fator mais intuitivo: nenhuma criança aprende uma língua sem ser exposta a ela.
Só que isso também significa
muito mais do que simplesmente ouvir algumas palavras durante as férias ou numa
chamada de vídeo com os avós. A criança precisa viver a língua.
Precisa ouvir
histórias. Participar de conversas. Fazer perguntas. Escutar explicações. Brincar.
Cantar.
Pesquisadores como
Erika Hoff vêm mostrando há muitos anos que a quantidade e a qualidade da
exposição influenciam diretamente o desenvolvimento linguístico.
Isso parece óbvio,
certo?
Mas existe um detalhe
importante: muitas famílias acreditam que exposição, sozinha, é suficiente.
E a exposição é
realmente fundamental, mas as pesquisas mais recentes sugerem que ouvir uma
língua não é a mesma coisa que usá-la.
Uma criança pode
entender perfeitamente o português e ainda assim preferir responder em
holandês, inglês ou na língua do país onde vive.
É aqui que entra o
segundo fator.
2. Necessidade: a criança precisa perceber utilidade na língua
Vamos imaginar uma
situação comum.
Uma criança brasileira
vivendo na Holanda.
Ela vai à escola em
holandês. Brinca em holandês. Pratica esportes em holandês. Assiste televisão
em holandês. Conversa com amigos em holandês. E descobre que os pais entendem
perfeitamente quando ela responde em holandês.
Pergunta sincera:
Por
que ela escolheria responder em português?
O linguista François
Grosjean costuma enfatizar aquilo que chama de princípio da necessidade.
Nós utilizamos as
línguas que precisamos utilizar. E isso vale para adultos e crianças.
Quando uma língua tem
uma função clara na vida da criança, ela tende a ser mantida com mais
facilidade.
A necessidade de falar
o português pode surgir de várias formas:
- avós que falam
apenas português;
- primos no Brasil;
- amigos brasileiros;
- viagens;
- atividades culturais;
- comunidades de falantes;
- ou até um
personagem, brinquedo ou bichinho de estimação que "só entenda
português".
Quanto mais a criança
percebe que o português tem um papel real na sua vida, maiores tendem a ser as
chances de mantê-lo ativo.
Mas perceber utilidade
não é o mesmo que usar a língua.
Uma criança pode saber
que o português é importante para conversar com os avós, para viajar ao Brasil
ou para manter contato com a família, e ainda assim falar relativamente pouco.
E é aqui que as pesquisas mais recentes
trouxeram uma contribuição particularmente interessante. Durante muito tempo os
pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança ouvia. Hoje
sabemos que ouvir uma língua é importante, precisar dela também, mas o próprio
ato de falar parece desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento
linguístico.
3. Uso ativo: ouvir não basta
Aqui encontramos uma
das contribuições mais interessantes das pesquisas mais recentes.
Durante muito tempo os
pesquisadores concentraram-se principalmente naquilo que a criança escutava. Mais
recentemente começaram a estudar aquilo que a criança falava.
E os resultados ajudam a explicar algo que
muitos pais observam na prática: algumas crianças entendem perfeitamente o
português, mas parecem ter dificuldade para responder.
Um estudo realizado em
Singapura com crianças aprendendo mandarim como língua de herança trouxe um
resultado bastante interessante.
Não era apenas a
quantidade de mandarim que as crianças ouviam que fazia diferença.
Fazia diferença também
o quanto elas utilizavam a língua. E, mais especificamente, em quantos
contextos diferentes elas a utilizavam.
Quando uma criança
fala uma língua, ela não está apenas reproduzindo palavras. Ela está: organizando
pensamentos, selecionando vocabulário, construindo frases, recebendo feedback,
corrigindo erros, praticando...
Em outras palavras: falar
também é uma forma de aprender.
Isso ajuda a entender por que algumas crianças
desenvolvem uma boa compreensão do português, mas têm mais dificuldade para
utilizá-lo de forma espontânea.
A compreensão foi construída. Mas as
oportunidades de uso ativo ficaram limitadas.
Quanto mais oportunidades nossos
curumins têm para usar o português em situações reais, maiores tendem a ser as
chances de que ele se torne uma língua viva, e não apenas uma língua
compreendida.
4. Consistência: o ingrediente menos emocionante e talvez um dos mais
importantes
Se eu pudesse escolher
apenas uma palavra para resumir muitos dos estudos sobre bilinguismo familiar,
provavelmente escolheria consistência.
Não porque exista uma
regra única que funcione para todas as famílias, mas porque a linguagem se
constrói através de milhares de pequenas interações repetidas ao longo do
tempo.
Pesquisadoras como
Annick De Houwer vêm mostrando há anos a importância daquilo que hoje chamamos
de Family Language Policy — ou política linguística familiar.
Em termos simples: o
que a família faz repetidamente importa. E muito!
Isso não significa
rigidez nem muito menos transformar o português em uma obrigação. Não, não,
não!!!
Mas significa que as
crianças tendem a compreender melhor o papel de cada língua quando existem
padrões relativamente estáveis no ambiente familiar, como por exemplo sempre
falar em português com a mãe e holandês com o pai; ou sempre falar português em
casa, inglês na escola e holandês com os amigos...e por aí vai.
Uma coisa é certa: o que ficou mais claro nas
pesquisas dos últimos anos é que ouvir uma língua, embora seja fundamental, não
é suficiente. O uso ativo da língua também é muito importante!
Em outras palavras: não basta que
nossos curumins escutem português. Eles também precisam de oportunidades reais
para usá-lo.
Então qual é a conclusão de tudo isso?
A ciência não oferece uma receita universal para criar
crianças bilíngues ou multilíngues. Cada família tem sua própria realidade,
seus próprios desafios e suas próprias estratégias.
Mas os estudos sugerem, de forma bastante consistente, que
a manutenção de uma língua de herança tende a ser favorecida quando a criança
recebe exposição significativa à língua, percebe utilidade nela, tem
oportunidades reais para usá-la e vive em um ambiente relativamente consistente
em relação às práticas linguísticas da família.
Parece simples. Na prática, sabemos que não é.
Especialmente quando estamos tentando equilibrar escola,
trabalho, atividades extracurriculares, vida social e todas as demandas da vida
real.
Mas entender esses fatores já é um excelente ponto de
partida!
Nos próximos meses pretendo voltar a
escrever mais sobre bilinguismo, língua de herança e os desafios de criar
filhos entre culturas e idiomas diferentes. Afinal, depois de quase duas
décadas estudando esse tema — e depois de criar dois filhos trilíngues aqui na
Holanda — ainda tenho a sensação de que estamos todos aprendendo juntos.
Então me conte sua experiência.
Depois de ler tudo isso, qual destes fatores parece ser o maior desafio na sua
família neste momento?
É a exposição? A necessidade? As oportunidades de uso
ativo? Ou a consistência?
Talvez a sua experiência inspire o próximo texto aqui no
blog e umas coisas lá no instagram 😊
Quer
se aprofundar no assunto?
- Pearson,
B. Z. (2008). Raising a Bilingual Child.
- De
Houwer, A. (2009). An Introduction to Bilingual Development.
- Grosjean,
F., & Pavlenko, A. (2021). Life as a Bilingual: Knowing and Using
Two or More Languages.
- Hoff,
E., Core, C., Place, S., Rumiche, R., Señor, M., & Parra, M. (2011). Dual
Language Exposure and Early Bilingual Development.
- Bialystok, E., & Werker, J. F. (2017). The
Systematic Effects of Bilingualism on Children's Development.
- Sun, H., Waschl, N., & Veera, R.
(2022). Language Experience and Bilingual
Children's Heritage Language Learning.
- Inan,
S., & Harris, Y. R. (2025). Beyond the Home: Rethinking Heritage
Language Maintenance as a Collective Responsibility.
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